Carnaval: história e atualidadeFesta popular, o carnaval ocorre em regiões católicas, mas sua origem é obscura. No Brasil, o primeiro carnaval surgiu em 1641, promovido pelo governador Salvador Correia de Sá e Benevides em homenagem ao rei Dom João IV, restaurador do trono de Portugal. Hoje é uma das manifestações mais populares do país e festejado em todo o território nacional.
Conceito e origem. O carnaval é um conjunto de festividades populares que ocorrem em diversos países e regiões católicas nos dias que antecedem o início da Quaresma, principalmente do domingo da Qüinquagésima à chamada terça-feira gorda. Embora centrado no disfarce, na música, na dança e em gestos, a folia apresenta características distintas nas cidades em que se popularizou.
O termo carnaval é de origem incerta, embora seja encontrado já no latim medieval, como carnem levare ou carnelevarium, palavra dos séculos XI e XII, que significava a véspera da quarta-feira de cinzas, isto é, a hora em que começava a abstinência da carne durante os quarenta dias nos quais, no passado, os católicos eram proibidos pela igreja de comer carne.
A própria origem do carnaval é obscura. É possível que suas raízes se encontrem num festival religioso primitivo, pagão, que homenageava o início do Ano Novo e o ressurgimento da natureza, mas há quem diga que suas primeiras manifestações ocorreram na Roma dos césares, ligadas às famosas saturnálias, de caráter orgíaco. Contudo, o rei Momo é uma das formas de Dionísio — o deus Baco, patrono do vinho e do seu cultivo, e isto faz recuar a origem do carnaval para a Grécia arcaica, para os festejos que honravam a colheita. Sempre uma forma de comemorar, com muita alegria e desenvoltura, os atos de alimentar-se e beber, elementos indispensáveis à vida. Período de duração. Os dias exatos do início e fim da estação carnavalesca variam de acordo com as tradições nacionais e locais, e têm-se alterado no tempo. Assim, em Munique e na Baviera (Alemanha), ela começa na festa da Epifania, 6 de janeiro (dia dos Reis Magos), enquanto em Colônia e na Renânia, também na Alemanha, o carnaval começa às 11h11min do dia 11 de novembro (undécimo mês do ano). Na França, a celebração se restringe à terça-feira gorda e à mi-carême, quinta-feira da terceira semana da Quaresma. Nos Estados Unidos, festeja-se o carnaval principalmente de 6 de janeiro à terça-feira gorda (mardi-gras em francês, idioma dos primeiros colonizadores de Nova Orleans, na Louisiana), enquanto na Espanha a quarta-feira de cinzas se inclui no período momesco, como lembrança de uma fase em que esse dia não fazia parte da Quaresma. No Brasil, até a década de 1940, sobretudo no Rio de Janeiro, as festas pré-carnavalescas se iniciavam em outubro, na comemoração de N. Sra. da Penha, crescia durante a passagem de ano e atingia o auge nos quatro dias anteriores às Cinzas — sábado, domingo, segunda e terça-feira gorda. Hoje em dia, tanto em Recife (Pernambuco), quanto em Salvador (Bahia), o carnaval inclui a quarta-feira de cinzas e dias subseqüentes, chegando, por vezes, a incluir o sábado de Aleluia. Carnaval no Brasil. Nem um décimo do povo participa hoje ativamente do carnaval— ao contrário do que ocorria em sua época de ouro, do fim do século XIX até a década de 1950. Entretanto, o carnaval brasileiro ainda é considerado um dos melhores do mundo, seja pelos turistas estrangeiros como por boa parte dos brasileiros, principalmente o público jovem que não alcançou a glória do carnaval verdadeiramente popular. Como declarou Luís da Câmara Cascudo, etnólogo, musicólogo e folclorista, "o carnaval de hoje é de desfile, carnaval assistido, paga-se para ver. O carnaval, digamos, de 1922 era compartilhado, dançado, pulado, gritado, catucado. Agora não é mais assim, é para ser visto". Entrudo. O entrudo, importado dos Açores, foi o precursor das festas de carnaval, trazido pelo colonizador português. Grosseiro, violento, imundo, constituiu a forma mais generalizada de brincar no período colonial e monárquico, mas também a mais popular. Consistia em lançar, sobre os outros foliões, baldes de água, esguichos de bisnagas e limões-de-cheiro (feitos ambos de cera), pó de cal (uma brutalidade, que poderia cegar as pessoas atingidas), vinagre, groselha ou vinho e até outros líquidos que estragavam roupas e sujavam ou tornavam mal-cheirosas as vítimas. Esta estupidez, porém, era tolerada pelo imperador Pedro II e foi praticada com entusiasmo, na Quinta da Boa Vista e em seus jardins, pela chamada nobreza... E foi livre até o aparecimento do lança-perfume, já no século XX, assim como do confete e da serpentina, trazidos da Europa. O Zé-Pereira. Em todo o Brasil, mas sobretudo no Rio de Janeiro, havia o costume de se prestar homenagem galhofeira a notórios tipos populares de cada cidade ou vila do país durante os festejos de Momo. O mais famoso tipo carioca foi um sapateiro português, chamado José Nogueira de Azevedo Paredes. Segundo o historiador Vieira Fazenda, foi ele o introdutor, em 1846, do hábito de animar a folia ao som de zabumbas e tambores, em passeatas pelas ruas, como se fazia em sua terra. O zé-pereira cresceu de fama no fim do século XIX, quando o ator Vasques elogiou a barulhada encenando a comédia carnavalesca O Zé-Pereira, na qual propagava os versos que o zabumba cantava anualmente: E viva o Zé-Pereira/Pois que a ninguém faz mal./Viva a pagodeira/dos dias de Carnaval! A peça não passava de uma paródia de Les Pompiers de Nanterre, encenada em 1896. No início do século XX, por volta da segunda década, a percussão do zé-pereira cedeu a vez a outros instrumentos como o pandeiro, o tamborim, o reco-reco, a cuíca, o triângulo e as "frigideiras". As fantasias. O uso de fantasias e máscaras teve, em todo o Brasil, mais de setenta anos de sucesso — de 1870 até início do decênio de 1950. Começou a declinar depois de 1930, quando encareceram os materiais para confeccionar as fantasias — fazendas e ornamentos –, sapatilhas, botinas, quepes, boinas, bonés etc. As roupas de disfarce, ou as fantasias que embelezaram rapazes e moças, foram aos poucos sendo reduzidas ao mais sumário possível, em nome da liberdade de movimentos e da fuga à insolação do período mais quente do ano. E foram desaparecendo os disfarces mais famosos do tempo do império e início da república, como a caveira, o velho, o burro (com orelhões e tudo), o doutor, o morcego, diabinho e diabão, o pai João, a morte, o príncipe, o mandarim, o rajá, o marajá. E também fantasias clássicas da commedia dell’arte italiana, como dominó, pierrô, arlequim e colombina — de largo emprego entre foliões e que já não tinham razão de ser, depois que a polícia proibiu o uso de máscaras nos salões e nas ruas... Aliás, desde 1685 as máscaras ora eram proibidas, ora liberadas. E a proibição era séria, bastando dizer que as penas, já no século XVII, eram rigorosíssimas: um proclama do governador Duarte Teixeira Chaves mandava que negros e mulatos mascarados fossem chicoteados em praça pública, e brancos mascarados fossem degredados para a Colônia do Sacramento...
Mas,
na década de 1930, muitas daquelas fantasias ainda eram utilizadas,
inclusive com máscaras. Entre elas estavam as de apache, gigolô,
gigolete, malandro (camiseta de listras horizontais, calça branca,
chapéu de palhinha, lenço vermelho no pescoço), dama antiga, espanhola,
camponesa, palhaço, tirolesa, havaiana, baiana. Aos poucos, os homens
foram preferindo a calça branca e a camisa-esporte, até chegar à bermuda
e ao busto nu, mas isso só depois da década de 1950; as mulheres
passaram às fantasias mais leves, atingindo, depois, o maiô de duas
peças e alguns colares de enfeite, logo o biquíni, o busto descoberto
etc. Bailes de carnaval. O carnaval europeu começou, na rua, com
desfiles de disfarces e carros alegóricos; e, em ambiente fechado, com
bailes, fantasias e máscaras. O carnaval carioca, certamente o primeiro
do Brasil, surgiu em 1641, promovido pelo governador Salvador Correia de
Sá e Benevides em homenagem ao rei Dom João IV, restaurador do trono de
Portugal. A festa durou uma semana, do domingo de Páscoa em diante, com
desfile de rua, combates, corridas, blocos de sujos e mascarados. Outro
carnaval importante foi o de 1786, que coincidiu com as festas para
comemorar o casamento de Dom João com a princesa Carlota Joaquina. Mas o
primeiríssimo baile de máscaras aconteceu em 22 de janeiro de 1840, no
hotel Itália, no largo do Rocio, no mesmo local em que se ergueria
depois o teatro e depois cinema São José, na praça Tiradentes, no Rio. A
entrada custava dois mil réis, com direito à ceia. No entanto, a voga
dos bailes carnavalescos em casas de espetáculos só se generalizou na
década de 1870. Aderiram à moda o teatro Pedro II, o teatro Santana, e
aí até os estabelecimentos populares entraram na dança, no Skating Rink,
o Clube Guanabara, o Clube do Rio Comprido, a Societé Française de
Gymnastique, em teatros que se alinhavam ao lado dos bailes públicos,
mas em área social selecionada. O carnaval se alastra: surgem
"arrastados" em casas de família, bailes ao ar livre, bailes infantis e
os pré-carnavalescos, bailes em circos, matinês dançantes. Afinal,
certos bailes ganharam fama nacional e até internacional, realizados em
grandes clubes, hotéis ou teatros: em 1908 houve o primeiro dos bailes
do High-Life, que chegaram ao fim nos anos 40; em 1918 iniciou-se a
tradição do baile dos Artistas, no teatro Fênix; em 1932, o primeiro
grande baile oficializado, o do teatro Municipal, abriu caminho para
muitos outros; e logo vieram os do Glória, Palácio Teatro, Copacabana
Palace, Palace Hotel, Cassino da Urca, Cassino Atlântico, Cassino
Copacabana, Quitandinha (em Petrópolis), Automóvel Clube do Brasil. Em
1935, o Cordão dos Laranjas construiu um salão, em forma de navio, que
"atracou" na Esplanada do Castelo, e ali se realizariam alguns dos mais
alegres bailes de três ou quatro carnavais. E enquanto o Municipal
iniciava concursos de fantasias de luxo (a princípio só femininas, e,
depois dos anos 50, masculinas), os bailes que atraíam multidões eram os
do Botafogo, Fluminense, Flamengo, Vasco da Gama, América. Bem
familiares em suas primeiras versões, reunindo a sociedade abastada em
trajes de gala, foram-se tornando cada vez menos bailes de fantasia. Já
não se conseguia dançar, apenas pular, e à casaca e ao smoking
juntavam-se o traje-esporte e o mulherio semidespido. E existiam os
bailes gremiais como o das Atrizes, o Vermelho e Negro, o dos Pierrôs
etc. Banho de mar à fantasia. Nos bailes, as danças variavam, de polca,
lundu e tanguinho a sambas, marchinhas, frevos, jongos e cateretês, com
todos os participantes cantando, pulando e "fazendo cordão". Já nos
banhos de mar à fantasia, porém, os foliões cantavam a plenos pulmões as
músicas de sua preferência e também aquelas que eram divulgadas por
discos e nos coretos municipais animados por bandas de música. Os banhos
de mar à fantasia criaram hábito no intervalo entre a primeira e a
segunda Guerra Mundial. Os blocos e foliões trajavam fantasias de papel
crepom e, após desfilarem nas praias, caíam na água, tingindo-a por
horas, pois as fantasias de papel desbotavam fortemente. Havia, é claro,
outro traje de banho, normal, sob aqueles carnavalescos e efêmeros.
Batalha de confete e corsos. O confete, a serpentina e o lança-perfume —
os três elementos que, entre o início do século e a década de 1950
animaram o carnaval brasileiro de salão — também cooperaram para o maior
êxito dos corsos que deram vida ao carnaval de rua. E neste, as
batalhas de confete constituíam o momento culminante. A moda do corso,
iniciada timidamente logo após a chegada dos primeiros automóveis,
atingiria seus momentos de glória entre 1928 e a década de 1940.
Consistia o corso numa passeata carnavalesca de carros de passeio
conversíveis, de capota arriada, enfeitados de panos coloridos e
bandeirolas, conduzindo famílias ou grupos de foliões que se sentavam
não só nos assentos mas também sobre a capota arriada, sobretudo as
moças fantasiadas de saias bem curtas, cantando ou jogando serpentinas e
confetes nos pedestres, que se amontoavam nas beiras das calçadas para
vê-las passar. Essa gente motorizada brincava também com os ocupantes
dos carros vizinhos e, por vezes, com os veículos rodando lentamente,
emendavam o cortejo atirando montes de confete e milhares de metros de
serpentina que enlaçavam os carros e se acumulavam no asfalto das
avenidas a cada noite. O lança-perfume também era usado em profusão,
enquanto a confraternização com os pedestres se ampliava não só através
dos jatos de lança-perfume — o que abria caminho para conhecimentos mais
íntimos, namoricos etc. — como também de caronas momentâneas na disputa
de músicas entoadas por uns e por outros. Cada cidade possuía seu local
de corso, e o do Rio de Janeiro ocorria, principalmente, na avenida Rio
Branco (antiga avenida Central), mas a certa altura, em vários
carnavais o corso se prolongava à avenida Beira-Mar, atingindo o
Flamengo e Botafogo até o Pavilhão Mourisco, no final da praia. Quase
conseqüência do corso — que desapareceu com o advento das limusines e
carros fechados — as batalhas de confete ocorriam em locais determinados
que possuíssem torcidas bairristas organizadas ou blocos fortes para
desenvolver a disputa — uma competição de canto, dança na rua e corso
(nem sempre). Nas semanas ou meses que antecediam o tríduo de Momo,
essas torcidas ou blocos organizavam as festas em que se gastavam quilos
de confete e serpentina, litros de lança-perfume, e em que se dava a
disputa entre as preferidas de cada agremiação. Tais batalhas se
prolongavam, às vezes, até o amanhecer, algumas superando a empolgação
dos dias de carnaval "legítimo". Pois ali se exibiam os blocos, os
ranchos e os foliões avulsos. Blocos, ranchos, grandes sociedades. No
carnaval de rua era comum o "trote" e os blocos de sujos. O encontro de
blocos resultava, às vezes, em batalhas campais de sopapos. Nos
desfiles, entre os anos 1919 e 1939, destacavam-se os tradicionais
ranchos, que desfilavam às segundas-feiras. Havia ainda as grandes
sociedades, com seus carros alegóricos, repletos de mulheres bonitas,
alegorias mitológicas, históricas e cívicas; carros de crítica política
encerravam, no fim da noite de terça-feira gorda, os festejos. Tais
agremiações se chamavam Tenentes do Diabo, Pierrôs da Caverna, Clube dos
Democráticos, Fenianos, Congresso dos Fenianos, Clube dos Embaixadores
etc. A grande concentração popular se fazia na avenida Rio Branco, da
Cinelândia até a rua do Ouvidor. A classe média alta preferia as
imediações do Jóquei Clube, entre a avenida Almirante Barroso e a rua
Araújo Porto Alegre. Alguns levavam seus próprios assentos, cadeiras e
banquinhos, mais tarde substituídos por palanques e arquibancadas
montados pela prefeitura. A segunda-feira era célebre não só pelo
desfile de ranchos — que usavam fogos de artifícios coloridos –, mas
também porque os freqüentadores do baile do Municipal eram observados
pelo populacho, que ia admirar-lhes as fantasias. A Galeria Cruzeiro,
hoje edifício Av. Central, era o ponto focal do trecho entre a rua São
José e a avenida Almirante Barroso, a área de maior animação dos
carnavalescos tradicionais, que cantavam e dançavam ao som das músicas
lançadas nos palcos dos teatros de revista e nas emissoras de rádio.
Escolas de samba. As "escolas de samba" nasceram de redutos de diversão
das camadas pobres da população do Rio de Janeiro, em sua quase
totalidade negros. Reuniam-se para cultivar a música e a dança do samba e
outros costumes herdados da cultura africana, e quase sempre
enfrentavam ostensiva repressão policial. Para a formação desses redutos
contribuiu decisivamente a migração de populações rurais nordestinas,
que, atraídas para a capital em fins do século XIX, introduziram um
mínimo de organização e de sentido grupal ao carnaval carioca, até então
herdeiro do entrudo português.
No
entanto, a denominação "escola" só vai surgir em 1928, com a criação da
Deixa Falar, no bairro do Estácio. Ismael Silva (1905-1978), seu
fundador, explicava o termo como decorrência da proximidade da Escola
Normal, no mesmo bairro, o que fazia os sambistas locais serem tratados
de "professor" ou "mestre". Posteriormente surgem diversas outras
escolas, entre as quais Portela, Mangueira e Unidos da Tijuca. No
começo, pouco se distinguiam dos blocos e cordões, com ausência de
sentido coreográfico e sem qualquer caráter competitivo. Com o tempo,
transformam-se em associações recreativas, abertas, cuja finalidade
maior é competir nos desfiles carnavalescos, transformados em atração
máxima do turismo carioca. De tal forma agigantam-se, que seus encargos —
a partir da década de 1960 — equivalem aos de uma empresa, o que as
obriga a funcionar por todo o ano, promovendo rodas de samba e "ensaios"
com entrada paga, maneira de amenizarem os gastos decorrentes da
preparação dos desfiles. Com a oficialização dos desfiles, a partir de
1935, as escolas passam a receber subsídios da prefeitura,
transformando-se, a partir de 1952, em sociedades civis, com regulamento
e sede, elegendo periodicamente suas diretorias, inclusive um diretor
de bateria, que comanda os instrumentos de percussão, e um diretor de
harmonia, responsável pelo entrosamento de canto e orquestra. A escola
desfila precedida de um abre-alas (faixa que pede passagem e anuncia o
enredo) e da comissão de frente (dez a quinze sambistas, representando
simbolicamente a diretoria da escola). A seguir, pastoras (antigas
dançarinas dos ranchos), fazendo evoluções; mestre-sala e
porta-bandeira; destaques; academia (coro masculino e bateria). O
restante divide-se em alas, geralmente com coreografias especiais, e
carros alegóricos. Apresentam sempre um tema nacional — lenda ou fato
histórico — expresso no samba-enredo, base de todo o desfile. Até 1932,
quando foi organizado o primeiro desfile, as escolas limitavam-se a
percorrer livremente as ruas, acompanhadas por populares. Naquele ano, o
jornal Mundo Esportivo organizou um desfile na praça Onze, de que
participaram dezenove escolas, saindo vitoriosa a Estação Primeira de
Mangueira. No ano seguinte o número de concorrentes subiu para 29 e o
desfile foi promovido pelo jornal O Globo, saindo vitoriosa novamente a
Mangueira. Em 1934, ano em que foi fundada a União Geral das Escolas de
Samba, a competição foi realizada no dia 20 de janeiro, em homenagem ao
prefeito Pedro Ernesto, e a Mangueira alcançou o tricampeonato. O
interesse em fomentar a competição com atração turística começou em
1935, quando o certame foi apoiado pelo Conselho de Turismo da
Prefeitura do então Distrito Federal, obtendo a Portela sua primeira
vitória, ainda com o nome de Vai Como Pode. A partir daí, já
estabelecido como promoção oficial do carnaval carioca, o desfile foi
realizado sem interrupção, exceto nos anos de 1938 e 1952, quando as
chuvas impediram a promoção. O modelo se estendeu a todas as capitais
brasileiras, excetuando-se duas: Salvador da Bahia e o conjunto
Recife-Olinda, em Pernambuco. Carnaval de Pernambuco e Bahia. O carnaval
pernambucano, especialmente em Olinda e Recife, é um dos mais animados
do país, e essa característica cresceu paralelamente à extinção do
carnaval de rua na maior parte das cidades brasileiras, por causa do
desfile das escolas de samba. As principais atrações do carnaval
pernambucano — cujos bailes também são os mais animados — são, na rua, o
frevo, o maracatu, as agremiações de caboclinhos, a imensa participação
popular nos blocos (reminiscências modernizadas dos antigos "cordões") e
os clubes de frevo. Em Recife e Olinda os foliões cantam e dançam,
mesmo sem uniformes ou fantasias, ao som das orquestras e bandas que
fazem a festa. Os conjuntos de frevo mais animados são os Vassourinhas,
Toureiros, Lenhadores e outros. Lembrando, pela cadência, os velhos
ranchos, os maracatus estão ligados às tradições afro-brasileiras. Já os
caboclinhos constituem outro tipo de agremiação folclórica, cujos
desfiles são apenas vistos e aplaudidos. A outra cidade em que a
participação popular é costumeira, e onde todos cantam, dançam e brincam
é Salvador. Uma invenção surgida na década de 1970 e que, à diferença
do frevo, conseguiu contagiar outros estados e cidades, foi o trio
elétrico — um caminhão monumental no qual se instalam aparelhos de som,
equipados com poderosos alto-falantes que reproduzem continuamente as
composições carnavalescas gravadas. Há ainda, como em Recife e Olinda,
muitos populares que improvisam fantasias simples mas também adotam a
postura galhofeira e vestem os disfarces de cinqüenta ou cem anos atrás.
Tudo isto traduz bem o espírito momesco irreverente que impele a
multidão à descontração total. Músicas de carnaval. Durante o império,
as músicas cantadas no período carnavalesco, no Brasil, eram árias de
operetas, depois lundus, tanguinhos, polcas e até valsas. No início do
século XX, predominaram, nas ruas, as cantigas de cordões e ranchos e,
nos bailes, chorinhos lentos, polcas-chulas, marchas, fados,
polcas-tangos, toadas e canções. Logo após a primeira guerra mundial, os
palcos dos teatros-de-revista tornaram-se os lançadores das músicas de
carnaval e iniciou-se, então, o domínio das marchinhas, maxixes,
marchas-chulas, cateretês e batucadas. E também do samba, que, na era do
rádio, entre 1930 e 1960, dividiu os louros com a marchinha, embora às
vezes cedesse ao sucesso de um jongo, de uma valsa ou de uma batucada. O
samba, nos salões e na rua, era absoluto. Mas desde fins do decênio de
1960, com a consolidação do desfile das escolas de samba, o samba e a
marcha mergulharam no ostracismo, trocados pelo samba-enredo das escolas
de samba.
Carnaval: história e atualidadeFesta popular, o carnaval ocorre em regiões católicas, mas sua origem é obscura. No Brasil, o primeiro carnaval surgiu em 1641, promovido pelo governador Salvador Correia de Sá e Benevides em homenagem ao rei Dom João IV, restaurador do trono de Portugal. Hoje é uma das manifestações mais populares do país e festejado em todo o território nacional.
Conceito e origem. O carnaval é um conjunto de festividades populares que ocorrem em diversos países e regiões católicas nos dias que antecedem o início da Quaresma, principalmente do domingo da Qüinquagésima à chamada terça-feira gorda. Embora centrado no disfarce, na música, na dança e em gestos, a folia apresenta características distintas nas cidades em que se popularizou.
O termo carnaval é de origem incerta, embora seja encontrado já no latim medieval, como carnem levare ou carnelevarium, palavra dos séculos XI e XII, que significava a véspera da quarta-feira de cinzas, isto é, a hora em que começava a abstinência da carne durante os quarenta dias nos quais, no passado, os católicos eram proibidos pela igreja de comer carne.
A própria origem do carnaval é obscura. É possível que suas raízes se encontrem num festival religioso primitivo, pagão, que homenageava o início do Ano Novo e o ressurgimento da natureza, mas há quem diga que suas primeiras manifestações ocorreram na Roma dos césares, ligadas às famosas saturnálias, de caráter orgíaco. Contudo, o rei Momo é uma das formas de Dionísio — o deus Baco, patrono do vinho e do seu cultivo, e isto faz recuar a origem do carnaval para a Grécia arcaica, para os festejos que honravam a colheita. Sempre uma forma de comemorar, com muita alegria e desenvoltura, os atos de alimentar-se e beber, elementos indispensáveis à vida. Período de duração. Os dias exatos do início e fim da estação carnavalesca variam de acordo com as tradições nacionais e locais, e têm-se alterado no tempo. Assim, em Munique e na Baviera (Alemanha), ela começa na festa da Epifania, 6 de janeiro (dia dos Reis Magos), enquanto em Colônia e na Renânia, também na Alemanha, o carnaval começa às 11h11min do dia 11 de novembro (undécimo mês do ano). Na França, a celebração se restringe à terça-feira gorda e à mi-carême, quinta-feira da terceira semana da Quaresma. Nos Estados Unidos, festeja-se o carnaval principalmente de 6 de janeiro à terça-feira gorda (mardi-gras em francês, idioma dos primeiros colonizadores de Nova Orleans, na Louisiana), enquanto na Espanha a quarta-feira de cinzas se inclui no período momesco, como lembrança de uma fase em que esse dia não fazia parte da Quaresma. No Brasil, até a década de 1940, sobretudo no Rio de Janeiro, as festas pré-carnavalescas se iniciavam em outubro, na comemoração de N. Sra. da Penha, crescia durante a passagem de ano e atingia o auge nos quatro dias anteriores às Cinzas — sábado, domingo, segunda e terça-feira gorda. Hoje em dia, tanto em Recife (Pernambuco), quanto em Salvador (Bahia), o carnaval inclui a quarta-feira de cinzas e dias subseqüentes, chegando, por vezes, a incluir o sábado de Aleluia. Carnaval no Brasil. Nem um décimo do povo participa hoje ativamente do carnaval— ao contrário do que ocorria em sua época de ouro, do fim do século XIX até a década de 1950. Entretanto, o carnaval brasileiro ainda é considerado um dos melhores do mundo, seja pelos turistas estrangeiros como por boa parte dos brasileiros, principalmente o público jovem que não alcançou a glória do carnaval verdadeiramente popular. Como declarou Luís da Câmara Cascudo, etnólogo, musicólogo e folclorista, "o carnaval de hoje é de desfile, carnaval assistido, paga-se para ver. O carnaval, digamos, de 1922 era compartilhado, dançado, pulado, gritado, catucado. Agora não é mais assim, é para ser visto". Entrudo. O entrudo, importado dos Açores, foi o precursor das festas de carnaval, trazido pelo colonizador português. Grosseiro, violento, imundo, constituiu a forma mais generalizada de brincar no período colonial e monárquico, mas também a mais popular. Consistia em lançar, sobre os outros foliões, baldes de água, esguichos de bisnagas e limões-de-cheiro (feitos ambos de cera), pó de cal (uma brutalidade, que poderia cegar as pessoas atingidas), vinagre, groselha ou vinho e até outros líquidos que estragavam roupas e sujavam ou tornavam mal-cheirosas as vítimas. Esta estupidez, porém, era tolerada pelo imperador Pedro II e foi praticada com entusiasmo, na Quinta da Boa Vista e em seus jardins, pela chamada nobreza... E foi livre até o aparecimento do lança-perfume, já no século XX, assim como do confete e da serpentina, trazidos da Europa. O Zé-Pereira. Em todo o Brasil, mas sobretudo no Rio de Janeiro, havia o costume de se prestar homenagem galhofeira a notórios tipos populares de cada cidade ou vila do país durante os festejos de Momo. O mais famoso tipo carioca foi um sapateiro português, chamado José Nogueira de Azevedo Paredes. Segundo o historiador Vieira Fazenda, foi ele o introdutor, em 1846, do hábito de animar a folia ao som de zabumbas e tambores, em passeatas pelas ruas, como se fazia em sua terra. O zé-pereira cresceu de fama no fim do século XIX, quando o ator Vasques elogiou a barulhada encenando a comédia carnavalesca O Zé-Pereira, na qual propagava os versos que o zabumba cantava anualmente: E viva o Zé-Pereira/Pois que a ninguém faz mal./Viva a pagodeira/dos dias de Carnaval! A peça não passava de uma paródia de Les Pompiers de Nanterre, encenada em 1896. No início do século XX, por volta da segunda década, a percussão do zé-pereira cedeu a vez a outros instrumentos como o pandeiro, o tamborim, o reco-reco, a cuíca, o triângulo e as "frigideiras". As fantasias. O uso de fantasias e máscaras teve, em todo o Brasil, mais de setenta anos de sucesso — de 1870 até início do decênio de 1950. Começou a declinar depois de 1930, quando encareceram os materiais para confeccionar as fantasias — fazendas e ornamentos –, sapatilhas, botinas, quepes, boinas, bonés etc. As roupas de disfarce, ou as fantasias que embelezaram rapazes e moças, foram aos poucos sendo reduzidas ao mais sumário possível, em nome da liberdade de movimentos e da fuga à insolação do período mais quente do ano. E foram desaparecendo os disfarces mais famosos do tempo do império e início da república, como a caveira, o velho, o burro (com orelhões e tudo), o doutor, o morcego, diabinho e diabão, o pai João, a morte, o príncipe, o mandarim, o rajá, o marajá. E também fantasias clássicas da commedia dell’arte italiana, como dominó, pierrô, arlequim e colombina — de largo emprego entre foliões e que já não tinham razão de ser, depois que a polícia proibiu o uso de máscaras nos salões e nas ruas... Aliás, desde 1685 as máscaras ora eram proibidas, ora liberadas. E a proibição era séria, bastando dizer que as penas, já no século XVII, eram rigorosíssimas: um proclama do governador Duarte Teixeira Chaves mandava que negros e mulatos mascarados fossem chicoteados em praça pública, e brancos mascarados fossem degredados para a Colônia do Sacramento...
Mas,
na década de 1930, muitas daquelas fantasias ainda eram utilizadas,
inclusive com máscaras. Entre elas estavam as de apache, gigolô,
gigolete, malandro (camiseta de listras horizontais, calça branca,
chapéu de palhinha, lenço vermelho no pescoço), dama antiga, espanhola,
camponesa, palhaço, tirolesa, havaiana, baiana. Aos poucos, os homens
foram preferindo a calça branca e a camisa-esporte, até chegar à bermuda
e ao busto nu, mas isso só depois da década de 1950; as mulheres
passaram às fantasias mais leves, atingindo, depois, o maiô de duas
peças e alguns colares de enfeite, logo o biquíni, o busto descoberto
etc. Bailes de carnaval. O carnaval europeu começou, na rua, com
desfiles de disfarces e carros alegóricos; e, em ambiente fechado, com
bailes, fantasias e máscaras. O carnaval carioca, certamente o primeiro
do Brasil, surgiu em 1641, promovido pelo governador Salvador Correia de
Sá e Benevides em homenagem ao rei Dom João IV, restaurador do trono de
Portugal. A festa durou uma semana, do domingo de Páscoa em diante, com
desfile de rua, combates, corridas, blocos de sujos e mascarados. Outro
carnaval importante foi o de 1786, que coincidiu com as festas para
comemorar o casamento de Dom João com a princesa Carlota Joaquina. Mas o
primeiríssimo baile de máscaras aconteceu em 22 de janeiro de 1840, no
hotel Itália, no largo do Rocio, no mesmo local em que se ergueria
depois o teatro e depois cinema São José, na praça Tiradentes, no Rio. A
entrada custava dois mil réis, com direito à ceia. No entanto, a voga
dos bailes carnavalescos em casas de espetáculos só se generalizou na
década de 1870. Aderiram à moda o teatro Pedro II, o teatro Santana, e
aí até os estabelecimentos populares entraram na dança, no Skating Rink,
o Clube Guanabara, o Clube do Rio Comprido, a Societé Française de
Gymnastique, em teatros que se alinhavam ao lado dos bailes públicos,
mas em área social selecionada. O carnaval se alastra: surgem
"arrastados" em casas de família, bailes ao ar livre, bailes infantis e
os pré-carnavalescos, bailes em circos, matinês dançantes. Afinal,
certos bailes ganharam fama nacional e até internacional, realizados em
grandes clubes, hotéis ou teatros: em 1908 houve o primeiro dos bailes
do High-Life, que chegaram ao fim nos anos 40; em 1918 iniciou-se a
tradição do baile dos Artistas, no teatro Fênix; em 1932, o primeiro
grande baile oficializado, o do teatro Municipal, abriu caminho para
muitos outros; e logo vieram os do Glória, Palácio Teatro, Copacabana
Palace, Palace Hotel, Cassino da Urca, Cassino Atlântico, Cassino
Copacabana, Quitandinha (em Petrópolis), Automóvel Clube do Brasil. Em
1935, o Cordão dos Laranjas construiu um salão, em forma de navio, que
"atracou" na Esplanada do Castelo, e ali se realizariam alguns dos mais
alegres bailes de três ou quatro carnavais. E enquanto o Municipal
iniciava concursos de fantasias de luxo (a princípio só femininas, e,
depois dos anos 50, masculinas), os bailes que atraíam multidões eram os
do Botafogo, Fluminense, Flamengo, Vasco da Gama, América. Bem
familiares em suas primeiras versões, reunindo a sociedade abastada em
trajes de gala, foram-se tornando cada vez menos bailes de fantasia. Já
não se conseguia dançar, apenas pular, e à casaca e ao smoking
juntavam-se o traje-esporte e o mulherio semidespido. E existiam os
bailes gremiais como o das Atrizes, o Vermelho e Negro, o dos Pierrôs
etc. Banho de mar à fantasia. Nos bailes, as danças variavam, de polca,
lundu e tanguinho a sambas, marchinhas, frevos, jongos e cateretês, com
todos os participantes cantando, pulando e "fazendo cordão". Já nos
banhos de mar à fantasia, porém, os foliões cantavam a plenos pulmões as
músicas de sua preferência e também aquelas que eram divulgadas por
discos e nos coretos municipais animados por bandas de música. Os banhos
de mar à fantasia criaram hábito no intervalo entre a primeira e a
segunda Guerra Mundial. Os blocos e foliões trajavam fantasias de papel
crepom e, após desfilarem nas praias, caíam na água, tingindo-a por
horas, pois as fantasias de papel desbotavam fortemente. Havia, é claro,
outro traje de banho, normal, sob aqueles carnavalescos e efêmeros.
Batalha de confete e corsos. O confete, a serpentina e o lança-perfume —
os três elementos que, entre o início do século e a década de 1950
animaram o carnaval brasileiro de salão — também cooperaram para o maior
êxito dos corsos que deram vida ao carnaval de rua. E neste, as
batalhas de confete constituíam o momento culminante. A moda do corso,
iniciada timidamente logo após a chegada dos primeiros automóveis,
atingiria seus momentos de glória entre 1928 e a década de 1940.
Consistia o corso numa passeata carnavalesca de carros de passeio
conversíveis, de capota arriada, enfeitados de panos coloridos e
bandeirolas, conduzindo famílias ou grupos de foliões que se sentavam
não só nos assentos mas também sobre a capota arriada, sobretudo as
moças fantasiadas de saias bem curtas, cantando ou jogando serpentinas e
confetes nos pedestres, que se amontoavam nas beiras das calçadas para
vê-las passar. Essa gente motorizada brincava também com os ocupantes
dos carros vizinhos e, por vezes, com os veículos rodando lentamente,
emendavam o cortejo atirando montes de confete e milhares de metros de
serpentina que enlaçavam os carros e se acumulavam no asfalto das
avenidas a cada noite. O lança-perfume também era usado em profusão,
enquanto a confraternização com os pedestres se ampliava não só através
dos jatos de lança-perfume — o que abria caminho para conhecimentos mais
íntimos, namoricos etc. — como também de caronas momentâneas na disputa
de músicas entoadas por uns e por outros. Cada cidade possuía seu local
de corso, e o do Rio de Janeiro ocorria, principalmente, na avenida Rio
Branco (antiga avenida Central), mas a certa altura, em vários
carnavais o corso se prolongava à avenida Beira-Mar, atingindo o
Flamengo e Botafogo até o Pavilhão Mourisco, no final da praia. Quase
conseqüência do corso — que desapareceu com o advento das limusines e
carros fechados — as batalhas de confete ocorriam em locais determinados
que possuíssem torcidas bairristas organizadas ou blocos fortes para
desenvolver a disputa — uma competição de canto, dança na rua e corso
(nem sempre). Nas semanas ou meses que antecediam o tríduo de Momo,
essas torcidas ou blocos organizavam as festas em que se gastavam quilos
de confete e serpentina, litros de lança-perfume, e em que se dava a
disputa entre as preferidas de cada agremiação. Tais batalhas se
prolongavam, às vezes, até o amanhecer, algumas superando a empolgação
dos dias de carnaval "legítimo". Pois ali se exibiam os blocos, os
ranchos e os foliões avulsos. Blocos, ranchos, grandes sociedades. No
carnaval de rua era comum o "trote" e os blocos de sujos. O encontro de
blocos resultava, às vezes, em batalhas campais de sopapos. Nos
desfiles, entre os anos 1919 e 1939, destacavam-se os tradicionais
ranchos, que desfilavam às segundas-feiras. Havia ainda as grandes
sociedades, com seus carros alegóricos, repletos de mulheres bonitas,
alegorias mitológicas, históricas e cívicas; carros de crítica política
encerravam, no fim da noite de terça-feira gorda, os festejos. Tais
agremiações se chamavam Tenentes do Diabo, Pierrôs da Caverna, Clube dos
Democráticos, Fenianos, Congresso dos Fenianos, Clube dos Embaixadores
etc. A grande concentração popular se fazia na avenida Rio Branco, da
Cinelândia até a rua do Ouvidor. A classe média alta preferia as
imediações do Jóquei Clube, entre a avenida Almirante Barroso e a rua
Araújo Porto Alegre. Alguns levavam seus próprios assentos, cadeiras e
banquinhos, mais tarde substituídos por palanques e arquibancadas
montados pela prefeitura. A segunda-feira era célebre não só pelo
desfile de ranchos — que usavam fogos de artifícios coloridos –, mas
também porque os freqüentadores do baile do Municipal eram observados
pelo populacho, que ia admirar-lhes as fantasias. A Galeria Cruzeiro,
hoje edifício Av. Central, era o ponto focal do trecho entre a rua São
José e a avenida Almirante Barroso, a área de maior animação dos
carnavalescos tradicionais, que cantavam e dançavam ao som das músicas
lançadas nos palcos dos teatros de revista e nas emissoras de rádio.
Escolas de samba. As "escolas de samba" nasceram de redutos de diversão
das camadas pobres da população do Rio de Janeiro, em sua quase
totalidade negros. Reuniam-se para cultivar a música e a dança do samba e
outros costumes herdados da cultura africana, e quase sempre
enfrentavam ostensiva repressão policial. Para a formação desses redutos
contribuiu decisivamente a migração de populações rurais nordestinas,
que, atraídas para a capital em fins do século XIX, introduziram um
mínimo de organização e de sentido grupal ao carnaval carioca, até então
herdeiro do entrudo português.
No
entanto, a denominação "escola" só vai surgir em 1928, com a criação da
Deixa Falar, no bairro do Estácio. Ismael Silva (1905-1978), seu
fundador, explicava o termo como decorrência da proximidade da Escola
Normal, no mesmo bairro, o que fazia os sambistas locais serem tratados
de "professor" ou "mestre". Posteriormente surgem diversas outras
escolas, entre as quais Portela, Mangueira e Unidos da Tijuca. No
começo, pouco se distinguiam dos blocos e cordões, com ausência de
sentido coreográfico e sem qualquer caráter competitivo. Com o tempo,
transformam-se em associações recreativas, abertas, cuja finalidade
maior é competir nos desfiles carnavalescos, transformados em atração
máxima do turismo carioca. De tal forma agigantam-se, que seus encargos —
a partir da década de 1960 — equivalem aos de uma empresa, o que as
obriga a funcionar por todo o ano, promovendo rodas de samba e "ensaios"
com entrada paga, maneira de amenizarem os gastos decorrentes da
preparação dos desfiles. Com a oficialização dos desfiles, a partir de
1935, as escolas passam a receber subsídios da prefeitura,
transformando-se, a partir de 1952, em sociedades civis, com regulamento
e sede, elegendo periodicamente suas diretorias, inclusive um diretor
de bateria, que comanda os instrumentos de percussão, e um diretor de
harmonia, responsável pelo entrosamento de canto e orquestra. A escola
desfila precedida de um abre-alas (faixa que pede passagem e anuncia o
enredo) e da comissão de frente (dez a quinze sambistas, representando
simbolicamente a diretoria da escola). A seguir, pastoras (antigas
dançarinas dos ranchos), fazendo evoluções; mestre-sala e
porta-bandeira; destaques; academia (coro masculino e bateria). O
restante divide-se em alas, geralmente com coreografias especiais, e
carros alegóricos. Apresentam sempre um tema nacional — lenda ou fato
histórico — expresso no samba-enredo, base de todo o desfile. Até 1932,
quando foi organizado o primeiro desfile, as escolas limitavam-se a
percorrer livremente as ruas, acompanhadas por populares. Naquele ano, o
jornal Mundo Esportivo organizou um desfile na praça Onze, de que
participaram dezenove escolas, saindo vitoriosa a Estação Primeira de
Mangueira. No ano seguinte o número de concorrentes subiu para 29 e o
desfile foi promovido pelo jornal O Globo, saindo vitoriosa novamente a
Mangueira. Em 1934, ano em que foi fundada a União Geral das Escolas de
Samba, a competição foi realizada no dia 20 de janeiro, em homenagem ao
prefeito Pedro Ernesto, e a Mangueira alcançou o tricampeonato. O
interesse em fomentar a competição com atração turística começou em
1935, quando o certame foi apoiado pelo Conselho de Turismo da
Prefeitura do então Distrito Federal, obtendo a Portela sua primeira
vitória, ainda com o nome de Vai Como Pode. A partir daí, já
estabelecido como promoção oficial do carnaval carioca, o desfile foi
realizado sem interrupção, exceto nos anos de 1938 e 1952, quando as
chuvas impediram a promoção. O modelo se estendeu a todas as capitais
brasileiras, excetuando-se duas: Salvador da Bahia e o conjunto
Recife-Olinda, em Pernambuco. Carnaval de Pernambuco e Bahia. O carnaval
pernambucano, especialmente em Olinda e Recife, é um dos mais animados
do país, e essa característica cresceu paralelamente à extinção do
carnaval de rua na maior parte das cidades brasileiras, por causa do
desfile das escolas de samba. As principais atrações do carnaval
pernambucano — cujos bailes também são os mais animados — são, na rua, o
frevo, o maracatu, as agremiações de caboclinhos, a imensa participação
popular nos blocos (reminiscências modernizadas dos antigos "cordões") e
os clubes de frevo. Em Recife e Olinda os foliões cantam e dançam,
mesmo sem uniformes ou fantasias, ao som das orquestras e bandas que
fazem a festa. Os conjuntos de frevo mais animados são os Vassourinhas,
Toureiros, Lenhadores e outros. Lembrando, pela cadência, os velhos
ranchos, os maracatus estão ligados às tradições afro-brasileiras. Já os
caboclinhos constituem outro tipo de agremiação folclórica, cujos
desfiles são apenas vistos e aplaudidos. A outra cidade em que a
participação popular é costumeira, e onde todos cantam, dançam e brincam
é Salvador. Uma invenção surgida na década de 1970 e que, à diferença
do frevo, conseguiu contagiar outros estados e cidades, foi o trio
elétrico — um caminhão monumental no qual se instalam aparelhos de som,
equipados com poderosos alto-falantes que reproduzem continuamente as
composições carnavalescas gravadas. Há ainda, como em Recife e Olinda,
muitos populares que improvisam fantasias simples mas também adotam a
postura galhofeira e vestem os disfarces de cinqüenta ou cem anos atrás.
Tudo isto traduz bem o espírito momesco irreverente que impele a
multidão à descontração total. Músicas de carnaval. Durante o império,
as músicas cantadas no período carnavalesco, no Brasil, eram árias de
operetas, depois lundus, tanguinhos, polcas e até valsas. No início do
século XX, predominaram, nas ruas, as cantigas de cordões e ranchos e,
nos bailes, chorinhos lentos, polcas-chulas, marchas, fados,
polcas-tangos, toadas e canções. Logo após a primeira guerra mundial, os
palcos dos teatros-de-revista tornaram-se os lançadores das músicas de
carnaval e iniciou-se, então, o domínio das marchinhas, maxixes,
marchas-chulas, cateretês e batucadas. E também do samba, que, na era do
rádio, entre 1930 e 1960, dividiu os louros com a marchinha, embora às
vezes cedesse ao sucesso de um jongo, de uma valsa ou de uma batucada. O
samba, nos salões e na rua, era absoluto. Mas desde fins do decênio de
1960, com a consolidação do desfile das escolas de samba, o samba e a
marcha mergulharam no ostracismo, trocados pelo samba-enredo das escolas
de samba.
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